terça-feira, 2 de outubro de 2012

aqui




sempre morro
ao meio

ao longe uma criança acena
convoca  meus cavalos que tropeçam
covardes silentes
amargos


almejo a nobreza
do ponto que encerra
reticências vírgulas


estou onde me escapa
o senso da partida mas não
alcanço um suspiro
nenhum sinal


aqui não há o migrar das aves
e por onde passo há pedras
que reconheço


e com as quais compartilho
uma vida mineral







sábado, 22 de setembro de 2012

cabelos





cachos que deslizam ao
penhasco de tuas vértebras


ondulam e desvelam
o odor de amoras que aprecio
no descer destas serras


por onde me enrosco
das paragens de tua
nuca às penugens


de tuas pétalas





sexta-feira, 14 de setembro de 2012

pudor

PUDOR


há fendas
por onde sibilam
segredos


nelas cacos
que cortam aortas
e esfarelam ossos


tudo posto em vasos
se confundem lá os 
restos nossos 


à espera 
de um gato preto
que nos redima


da falta de pecado

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

cinematográfica




ela é
um cinema

me enveredo
em seu enredo

mas me perco
a cada cena

ela é sempre
uma estréia

e nós apenas
sua platéia




                 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

conflitos

[dos conflitos]


quando
os dentem falam

a boca
é quem sangra

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

atalhos

[dos atalhos]


se os atalhos
fossem fáceis



há muito
seriam estradas

sábado, 1 de maio de 2010

narcísico



por tanto olhar que lhe atravessara, não mais se reconhecia, a não ser feito moldura, despojada de tintas ou fotos. não à toa, fazia-lhe tanto sentido correr aos espelhos, tatear o reflexo da boca no movimento ocluso de certas palavras, certificar-se de que ainda era, embora vazia. Criava, assim, estratégias que lhe confirmassem o mundo ou a sua presença, jamais as duas ao mesmo tempo, posto lhe fosse estrangeiro o relacional. quem sabe quando desapareceria? se é que um dia existira.


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