sábado, 14 de novembro de 2009

deriva








no profundo vazio
desta vida


invento sentidos
para que sejam


a contrapartida
de uma luta contra


o mar e o vento
sem terra alguma


prometida



*










domingo, 1 de novembro de 2009

enseadas





anseio por enseadas e
não oceanos


as águas são as mesmas
e a terra


nunca é engano
*

um alguém






daqui por
diante

meus dias
serão

diamantes


*


terça-feira, 20 de outubro de 2009

subjuntivo



que a vida
sempre
lhe reserve

o melhor
presente



*

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

os pés alados



teus pés
são como
pássaros


não pisam
apenas
pousam


voam e
despistam
rastros


(e sequer
ficamos
com uma


sandália)



*

sábado, 26 de setembro de 2009

roldanas

*



À vida que se funde no terreno da frieza, falta o sentido que lhe valha. O tempo se amarga e fustiga os desejos, gota a gota desprovidos de teor. Furta-se da maquinaria dos afetos seus complexos enlaces, restando um parco sistema de roldanas. O peso do cotidiano repartido e suportável. Nasce o couro sobre os limites do ser e o efeito das carícias é lançada ao limbo, até se tornar duvidável. E um dia, dentro da vida forjada na frieza, o sentimento de tão estrangeiro será um inimigo. E a batalha, uma convicção.




*

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

o tato e o imaginário





Se não te vejo, ficas mais linda, pois em mim recrio o que em ti me retira as sílabas. Pitangas, cometas, glicíneas, brisas do mar, misturo-os e você vira um enigma. Mas se te vejo, nem sei se estás ou não bonita, se ainda é dia ou se o dia hoje existe. Se te vejo, nada mais vejo. E todo lugar é apenas o espaço de nosso encontro.



*


Todo pensamento é um contorno de tristeza. Saber que não se tem a forma e a carne à nossa frente. Criação de indícios que sustentam na memória o festival das sensações. Sempre uma saudade. Afluente do medo de não termos a posse de nada, a não ser dentro deste palco em que nos reconhecemos e nos recriamos, inacessíveis. Calabouço.


*


O pensamento é quem nos pensa. Faz-nos reféns de suas artimanhas, até que nos desconheçamos. Até não sabermos se verdadeiros foram alguns sentimentos, ou recriações para satisfazê-lo.



*