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sexta-feira, 26 de março de 2010

inviolável

Não fora intenção trazer o segredo à órbita da claridade, antes abrir-lhe flancos, de tal sorte a tecer insinuações que gota a gota revelassem o motivo do silêncio. Descobrir através das penugens, territórios sensíveis e orifícios velados. Alardear a conquista de um palmo rumo à suposição de um entendimento, restando sempre o sentido do inacabado. O mistério não pela dúvida, mas pela ausência das perguntas certas. Desculpe-me, a luz nunca fora a intenção.


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sábado, 26 de setembro de 2009

roldanas

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À vida que se funde no terreno da frieza, falta o sentido que lhe valha. O tempo se amarga e fustiga os desejos, gota a gota desprovidos de teor. Furta-se da maquinaria dos afetos seus complexos enlaces, restando um parco sistema de roldanas. O peso do cotidiano repartido e suportável. Nasce o couro sobre os limites do ser e o efeito das carícias é lançada ao limbo, até se tornar duvidável. E um dia, dentro da vida forjada na frieza, o sentimento de tão estrangeiro será um inimigo. E a batalha, uma convicção.




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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

o tato e o imaginário





Se não te vejo, ficas mais linda, pois em mim recrio o que em ti me retira as sílabas. Pitangas, cometas, glicíneas, brisas do mar, misturo-os e você vira um enigma. Mas se te vejo, nem sei se estás ou não bonita, se ainda é dia ou se o dia hoje existe. Se te vejo, nada mais vejo. E todo lugar é apenas o espaço de nosso encontro.



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Todo pensamento é um contorno de tristeza. Saber que não se tem a forma e a carne à nossa frente. Criação de indícios que sustentam na memória o festival das sensações. Sempre uma saudade. Afluente do medo de não termos a posse de nada, a não ser dentro deste palco em que nos reconhecemos e nos recriamos, inacessíveis. Calabouço.


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O pensamento é quem nos pensa. Faz-nos reféns de suas artimanhas, até que nos desconheçamos. Até não sabermos se verdadeiros foram alguns sentimentos, ou recriações para satisfazê-lo.



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segunda-feira, 6 de julho de 2009




Como fossem seus sentimentos tão dúbios, lançou mão daquela por quem se apaixonara e que lhe falava com o sussurro mais doce e suave por ele jamais conhecido, a boca de delicados contornos a roçar seus ouvidos com a leveza das plumas, induzindo-lhe sempre um sorriso calmo e pleno, como se as resoluções todas viessem não a partir das artimanhas do pensamento, mas pela sutileza de três ou quatro simples palavras lançadas com tal despretensão que com todo fulgor o atingia, feito uma nobre arqueira de olhos vendados a lançar suas flechas aos menores meandros de seu coração, a princesa envolta em seda e rendas claras sugerindo suas formas perfeitas na ondulação dos tecidos e com quem não poderia mais estar devido à sua coerência e sensatez em arriscar-se por uma fantasia moldada por impressões dispersas, pela incerteza que lhe despertava na boca aromas a explodir em tonalidades extravagantes, e não era por causa de outras pernas e outros olhos somente, pois os corpos apenas se penetram nos limites dos corpos, mas porque já era tempo e ele era solidão.

terça-feira, 14 de abril de 2009

ESCORBUTO




Andarilho obtuso, pelo cascalho moldado, rumino castelos que se erigem até o sopro de uma impossibilidade. O castigo de secar em meio aos mares, me segue feito a língua bífida das serpentes, e me resta somente suportar a ruína da carne, até o encontro dos ossos. O sol me escalda, e mal sei se alucino ao ver meu fantasma por entre ramagens do deserto ou seriam ondas. Por que me estendo a mão, se não creio nas vertigens do espírito? Será minha fé tombada por colheitas perdidas? Afasto porções de silêncio sobre futuras pegadas. Uma brisa revela perfumes infímos de plantas frescas. Gaivotas salpicam o céu. Meus companheiros se animam, cantam e rezam. Longe, avisto nova terra, com promessas que serão desfeitas e desejos a serem suspensos. Chegamos. E Deus não tem nada a ver com isso.








segunda-feira, 13 de abril de 2009

fragmentos


Não chegávamos, nem íamos, por saber que nisso estava a graça, de ficar ao meio-fio a espiar o mundo e nos lambuzar de esmeraldas surgidas nos caminhos que se furtavam à vista, por além das colinas, por sobre os mares, até os céus, a romper a noite e a passar o silêncio dos grilos.

Por anos, nossa Terra girara assim, sem sentido de espera, apitos de partida ou chegada. Não guardávamos frutos e nos saciávamos sempre aos pés das árvores, a colheita apenas ao apelo da boca e as sementes lançadas aos pássaros. Nosso sono não era o justo, mas o farto, o corpo estirado sobre relva qualquer, jamais encolhido pelo medo que se plantam nos dias. Passeávamos ao mando dos pés e guardamos fotografia alguma daqueles dias, por nos sabermos eternos. O tempo não existia para nós.

Assim vivemos durante eras, sem eira nem beira. Mas talvez por não tê-las, começaram as palavras seus sumiços terríveis. À princípio, aquelas aos finais de frases, tornando-nos reticentes; depois as que dizíamos durante abraços. “Olá, minha cara, bom dia, meu bem”, nos constrangia, e passamos a pensá-las antes de dizê-las. A quietude esgueirava à feição das cobras e embora criássemos adjetivos, jamais falavam à altura das coisas. No dia em que ficamos mudos, teimou a aurora a raiar e o leite esfriou na espera do Sol. Tornamo-nos mímicos, mas ainda nos olhávamos, e um ao outro tentávamos perguntas, onde está o açúcar, você viu os chinelos?


(CTY, do conto "O apartamento")